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Crepúsculo de um (semi) Deus

1 de out.
4 min de leitura

Atualizado: 3 de out.

O provável adeus de CR7 aos grandes palcos, afundado por um ego que outrora tanto lhe deu.


Durante mais de vinte anos, Cristiano Ronaldo habituou-nos a uma realidade imutável: sempre que surgiam dúvidas sobre aquilo que valia, a resposta aparecia em campo. Marcava, decidia e deixava os críticos com pouco mais para fazer do que esperar pela próxima oportunidade de o trucidar, e foi assim que construiu uma carreira extraordinária. Por isso mesmo, aceitar uma mudança de papel nunca seria simples na cabeça do outrora melhor do mundo.


É perfeitamente compreensível que, dado o seu currículo, CR7 sinta que o banco de suplentes não é para si. Não está habituado (a última vez que foi suplente não utilizado foi em 2008!), não está confortável, sente-se diminuído e continua plenamente convencido de que pode fazer mais do que quem está lá dentro. Faz parte daquilo que o tornou grande. A verdade é que os colegas não têm culpa de Ronaldo já não ser o mesmo de outros tempos e muito menos devem sentir que uma vitória vale menos quando o capitão não participa. Quando Cristiano joga e marca e Portugal vence, há abraços, sorrisos, celebrações e elogios públicos aos colegas. Quando não joga ou não faz um bom jogo, a vitória vem com um asterisco, em forma de gestos de birra francamente narcisistas.


Não pode haver diferenciação entre uma vitória com Cristiano e uma vitória sem Cristiano. É particularmente confrangedor ver o capitão concentrar em si todas as atenções depois de uma vitória difícil e de uma boa exibição coletiva como na Noruega. A braçadeira de capitão não serve apenas para aparecer nas fotografias ou levantar troféus, mas implica também saber ceder palco a outros quando o merecem. Algumas das suas reações dos últimos anos têm sido infantis e injustas para os seus colegas, que também têm qualidade e que trabalham muito para estar onde estão. Nunca saberemos verdadeiramente a posição do balneário nesta problemática, mas o que é certo é que têm dado uma excelente resposta sem Cristiano, tendo feito dois dos melhores jogos dos últimos anos.


Jorge Jesus, por sua vez, tem toda a legitimidade para decidir aquilo que entender, mesmo que 24 horas antes tenha demonstrado outra intenção. Uma promessa de minutos não é uma escritura pública nem obriga o treinador a apresentar justificação. O jogo pode pedir outra solução, as circunstâncias podem mudar ou o treinador pode simplesmente mudar de ideias. Acontece no futebol e, ocasionalmente, até na vida. Com duas décadas ao mais alto nível, Ronaldo deveria conhecer esse princípio melhor do que a maioria. Transformar uma decisão técnica em drama nacional (envolvendo até o Primeiro-Ministro e o Presidente da República) só acrescenta ruído ao balneário e mantém o grupo mental e taticamente preso a um problema que já deveria estar resolvido há muito. Acostumou-se a estar acima do treinador na gestão do seu tempo de jogo, mas face a um treinador experiente da velha guarda não teve a mínima hipótese.


Durante muito tempo, Ronaldo e a Federação viveram uma relação de conveniência que começou a parecer aqueles namoros tóxicos em que toda a gente percebe que já não funciona, menos os dois envolvidos. Ronaldo servia-se da Seleção como o último grande palco capaz de preservar intacta a sua dimensão mundial, enquanto a FPF servia-se de Ronaldo como uma máquina de audiências, patrocinadores, camisolas, seguidores e dimensão internacional, no valor de cerca de 850 milhões de euros. A título de curiosidade, referir que a Federação Portuguesa de Futebol perdeu 500.000 seguidores nas redes sociais apenas nas 24 horas seguintes à deserção do jogador.


É perfeitamente legítimo que Ronaldo, mesmo aos 41 anos, sendo um animal competitivo, sinta que ainda consegue contribuir, mas a verdade é que estamos num ponto no qual a relação custo-benefício pende fortemente para o lado do custo. Os ciclos começam e terminam, e talvez esteja na altura de avançar para outros projetos e permitir que outros tentem dar continuidade ao que construiu. Em vez disso, decidiu esticar a corda até ao ponto de rutura. Não há dúvidas que os portugueses estarão profundamente gratos pelo que Ronaldo proporcionou, mas a gratidão tem limites, não pode interferir com a realidade desportiva e com o rendimento atual da equipa.


Nada apagará os recordes, os títulos ou o lugar que conquistou entre os maiores de sempre. Mas este final ficará sempre associado a uma saída que podia ter sido muito mais simples, elegante e digna. Se a recente renúncia aos restantes jogos da Seleção significar que esta foi realmente a última vez que vimos Cristiano Ronaldo com a camisola de Portugal, será uma despedida triste sobretudo porque era perfeitamente evitável. Poderá até vir a existir um reconciliamento formal entre as partes, de modo a possibilitar uma despedida decente, mas não é provável que Ronaldo volte a desempenhar qualquer papel de relevo nesta Seleção.


Cristiano passou uma carreira inteira a saber quando e como aparecer, mas falhou redondamente em perceber quando e como desaparecer. O seu ego, aquilo que tanta força e resiliência lhe injetou ao longo da carreira, é também o que acaba por deixar mancha no final, reforçando aquela ideia de que as nossas maiores forças são também as nossas maiores fraquezas. Há grandeza em sair pela porta grande mas é com muita tristeza que se confirma que, no caso do grande CR7, a porta será bastante mais apertada.



 
 
 

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